Tuesday, March 06, 2018

A propósito do abraço



No dicionário Priberam da Língua Portuguesa, a palavra “abraço” é definida da seguinte forma: “Acto de abraçar, de apertar entre os braços, geralmente em demonstração de amor, gratidão, carinho, amizade, etc”.

Durante toda a minha vida usei e abusei de dicionários. Não sei porquê, mas na minha sempre ávida sede de saber, os dicionários têm sido fiéis amigos e raramente me têm desiludido. Depois de viver a história que em seguida relato, cheguei a casa e fui procurar uma palavra sobre a qual nunca me tinha debruçado, talvez por ser uma palavra simples e de fácil compreensão. Que enganado estava! A palavra “abraço” encerra em si tantos significados quanto as sensações que a sua efectivação pode provocar, ou certamente mais. A história que se segue é verídica e qualquer semelhança com a realidade não é, de todo, pura coincidência.


No outro dia fui ao café com o meu filho. Não o fazemos muitas vezes, mas de vez em quando lá lhe pergunto se ele quer e a resposta é, normalmente, afirmativa. Fomos de mão dada, como é costume, pois a estrada é perigosa e o pouco passeio que existe está cheio de carros, ou de cocó. Não me importo. Vou de mãos dadas com o meu filho. Chegados ao café, a primeira coisa que o meu filho faz é desatar a correr à procura da senhora do café, cuja cara lhe é já familiar, e a quem ele gosta muito de ir mostrar as sapatilhas novas. Estas (as sapatilhas), de novas já não têm grande coisa, mas não faz mal. É sempre engraçado vê-lo estender a pernoca e pedir à senhora do café que olhe para as sapatilhas. A senhora do café entra na brincadeira e pergunta sempre, com ar de espanto: São novas? Ao que o meu filho responde que sim, que foi o papá que comprou (mentira, foi a mamã, mas o papá não se importa com mentirinhas inocentes). Depois de mostradas as sapatilhas-não-tão-novas-assim-mas-não-faz-mal, o meu filho repara sempre na vitrina cheia de bonecos, daqueles que saem nos ovos de chocolate, sem nunca se esquecer de me chamar à atenção para o Super Mário que, lá ao fundo, espreita com a cabeça de fora de um cano de esgoto verde-alface. O café está pronto. Vamos para a esplanada para ele brincar enquanto eu beberico o café e ensaio uns sinais de fumo. Depois da brincadeira e da cafeína, pergunto-lhe se quer ir para casa e ele, mais uma vez, responde afirmativamente. Mas desta vez passou-se algo diferente. Ao entrarmos novamente no café, o meu filho saca de um “olá” gigantesco e desata a correr na direcção da senhora do café. Devo admitir que por uma fracção de segundo fiquei assustado, não sabendo ao certo como terminaria tamanha debandada. A senhora do café levantou-se e, de braços abertos, acolheu a investida do meu filho. Agora, o que tem esta situação de especial ou de relevante? Nada mais simples. Sou frequentador assíduo daquele café há já alguns anos e de todas as vezes que lá fui tomar a minha bica reparei que a senhora do café não sorri. Sempre foi simpática e prestável, mas sorrir parecia ser uma missão impossível. Ao ser abraçada pelo meu filho, esboçou um sorriso de tal forma sincero que me emocionou e me fez sorrir também. Além disso, também me deu que pensar: como é que uma coisa tão simples pode trazer tanta alegria, ainda que momentânea, à vida de uma pessoa? Eu não sou coscuvilheiro e nem sequer faço ideia do motivo da falta de alegria constante no semblante da senhora do café. Desconfio que terá a ver com o facto de ser imigrante, mas não sei. Seja como for, com um simples gesto, o meu filho cumpriu todas as definições que o dicionário tem para aquela palavra e, ainda que apenas por breves momentos, a senhora do café foi apertada pelos braços pequeninos do meu filho, numa demonstração de amor pelo próximo, num agradecimento por estar sempre pronta a demonstrar interesse pelas sapatilhas-não-tão-novas-assim-mas-não-faz-mal, num gesto de genuíno carinho que, certamente, fez despoletar uma nova amizade e, provavelmente, alguns eteceteras.

Um abraço.

Tuesday, July 04, 2017

Afinal não é uma saga

Querido Pê,

Apesar de não me apetecer expandir-me muito mais sobre este assunto, não podia deixar de escrever qualquer coisa, em jeito de despedida. Sim, despedida! Não sei que bicho te mordeu, ou se recebeste a visita de alguém, aquele tipo de pessoas que “tratam das coisas”, como vemos nos filmes. Desde já te garanto que eu nada tive a ver com o assunto, mas já não posso falar pelos meus milhares de leitores (sim, milhares... a maioria são tímidos), que se mostraram, aliás como eu, indignados aquando do primeiro texto que escrevi sobre este assunto. Catorze valores foi a nota que decidiste dar-me como avaliação do exame do passado dia vinte e sete. Já falei sobre o conteúdo do mesmo e sobre a minha incerteza em relação àquilo que escrevi, portanto não me vou demorar. Devo admitir, no entanto, que não esperava uma nota tão decente! Catorze é aquela nota que nos deixa entre a excelência e a medianidade. Neste caso concreto, creio que a que mais se coaduna com o meu trabalho será a primeira, mas...
Entretanto, não podia despedir-me de ti sem manifestar a minha preocupação para com as gerações de jovens que tens e terás como alunos. Ainda que as gerações mais novas estejam (mal) habituadas a que lhes façam a papinha toda (perdoem-me, leitores mais petizes, mas é verdade), estou em crer que algo devia mudar. Ou se calhar tudo. Não estou a par do método de ensino das Humanidades nas escolas secundárias de Portugal, mas quero acreditar que, à semelhança do que os meus professores fizeram comigo, é fomentado o pensamento individual, o saber fazer por si próprio, o ter opinião. A meu ver, os alunos “respondões” são os melhores alunos nestas áreas, mas posso estar enganado. O problema é que, como pude constatar neste meu regresso ao mundo académico, a opinião própria é relegada, senão mesmo aniquilada, por uma espécie de imposição sistémica, de uma falta de paciência generalizada e bem patente nos docentes, que, ao verem a falta de armas de que os alunos dispõem, se deixam levar e, ao invés de tentarem contrariar o fluxo do rio, nele embarcam e se deixam levar, deixando o problema ir, literalmente, por água abaixo. Recordo-me de uma aula em que falaste, precisamente, sobre o futuro das Humanidades, que não se prevê nada risonho. Argumentaste que, daqui por vinte anos, vão ser necessários professores para as universidades. Não sei se de propósito, mas nunca falaste do porquê, que é muito simples e se resume numa palavra: Cátedra. É curioso também verificar que, passados quase vinte anos da minha primeira matrícula na Universidade do Algarve, o corpo docente da Faculdade de Letras se mantenha absolutamente e inexoravelmente inalterado. Nem um nomezinho diferente, nem uma nesga de juventude, de novas ideias, novas perspectivas. Assim, não estranhei nada que a evolução da supracitada - tanto em termos de investigação como de docência per se – tenha sido nula. Tirando algumas conferências sempre com os mesmos protagonistas, nada se passa naquela faculdade. A sensação que me dá é que a faculdade se tornou numa espécie de família que se reúne de vez em quando para celebrar a sua própria existência, quando o que devia acontecer, na minha opinião, era uma expansão dessa família, com novos “filhos” que trouxessem algo de novo e reinventassem o processo de ensino/aprendizagem, sendo que o futuro se adivinharia bem mais risonho, tanto para alunos, como para professores. E tudo isto tem um motivo muito simples, que se explica através da resposta à seguinte pergunta: a universidade vive do quê? Dos alunos! Dos alunos pagantes de propinas, entenda-se, mas não obstante somos nós que compomos o ramalhete. O problema desta universidade é mesmo este (e não sei como é nas outras): não se valoriza o aluno. Tanto jovem com valor que por lá anda a estudar, para no fim de três anos não ter outra hipótese senão ir para outro lado, ou trabalhar numa área que nada tem a ver com o curso. Mas isso é outra conversa. Entretanto, sei de fonte segura que, para o ano, o curso de Literatura terá a módica quantia de seis alunos. Seis! Há dezoito anos, quando saí de casa para estudar, éramos cinquenta e três. E sim, podes argumentar que os cursos de letras têm cada vez menos alunos por causa das saídas profissionais, mas se isso fosse verdade, os únicos cursos com muita gente seriam cursos nas áreas da informática. Não é isso que vejo todos os dias, quando vou para a universidade. O que vejo é uma faculdade que definha lentamente, engasgada no seu próprio orgulho, e as outras faculdades que, pelo menos “lá fora”, vão tendo algum reconhecimento (nem que seja a Faculdade de Ciências e Tecnologia, que muito bom trabalho tem vindo a desenvolver).
Temo ter-me desviado um pouco do propósito desta despedida, mas assim o ditam as deambulações do pensamento. Um destes dias vou fazer uma coisa que já tinha pensado, ainda que não me pareça que fará algum tipo de diferença. Vou pegar no meu “Clube dos Poetas Mortos” e vou depositá-lo no teu cacifo, sem remetente nem mensagem. Deixo ao teu critério, ao contrário do que tu fizeste comigo, a interpretação do filme e das lições que dele podes tirar. Se alguma coisa boa daí vier, tanto melhor. Caso contrário, está para além do meu poder mudar seja o que for.
No meio disto tudo, só uma coisa é certa: Nunca mais vou ter de ser teu aluno.

Adeus.

Tuesday, June 27, 2017

Querido Pê,

Em primeiro lugar, quero informar-te da tua evolução. Achei por bem tirar-te o ponto e acrescentar-te um acento todo catita, de seu nome circunflexo, pois julgo estar na ordem do dia um pequeno makeover à tua imagem. Passas assim, e sem mais delongas, a chamar-te Pê. Agora, adiante.
Antes de me pronunciar sobre o teste a que me submeteste hoje, e sem esquecer, de passagem, a longa conversa que tivemos no teu escritório, quero partilhar contigo o sonho que tive ontem, na malfadada noite que antecedeu o exame (sim, porque o nervoso miudinho típico dos exames não desaparece, independentemente da idade). Sonho caricato, esse que tive. Consistiu, basicamente, num espaço escuro, breu mesmo, onde se encontrava, bem no centro, o enunciado do exame. A primeira curiosidade foi o GIF que compunha o canto superior direito. Caso não saibas, GIF quer dizer Graphics Interchange Format, um nome pomposo como os que tu gostas, mas que significa tão simplesmente que o olhar se encontra perante uma imagem animada. E essa imagem, o que tinha? A tua cara, sorridente. Animada. Sorridente. Foi nesse momento que concluí - isto tudo dentro do sonho - que estava num pesadelo. Mas enfim, que a sustos deste tipo estou bem habituado. O resto do enunciado tinha apenas duas perguntas, e lembro-me de me questionar se o facto de teres reduzido o número de perguntas se prendia com a conversa que tivemos e sobre a qual, como já referi, mais à frente falarei. Do teor das perguntas não me recordo, mas estou certo de que seriam ao teu estilo: objectivas.
É com esta palavra, objectiva, que vamos avançar. Nos cinquenta minutos que estive no teu escritório, parei de te ouvir ainda não tinham passado cinco, quando me atiraste à cara, qual bofetada com as costas da mão, que as perguntas que tinhas feito no exame eram objectivas. Ora, ao ouvir isso, desliguei, pois não sou doutor, como tu. Se fosse, talvez tivesse o discernimento de perceber que a Literatura (exceptuando os romances de algibeira, vulgo bulas medicinais) NUNCA pode ser objectiva. Não pode! NUNCA! E não é preciso argumentos. Basta ler um livro. De qualquer forma, não fiques ensimesmado, que os quarenta e cinco minutos seguintes passei-os a apreciar a colecção de livros do teu colega (isto depois de te perguntar se eram teus, ainda que duvidasse muito que fossem). No final, e com ar preocupado, ainda me perguntaste se eu mudaria alguma coisa nas tuas aulas. O ímpeto que tive foi de responder que te mudaria a ti, mas não o fiz. Limitei-me a dizer que talvez, e apenas talvez, as aulas pudessem ser mais interactivas. Gaguejaste e disseste-me que isso não era possível, pois os alunos não lêem os textos em casa. Calei-me. 
Basicamente, e para acabar com esta parte, entrei e saí do teu escritório da mesma forma: exactamente igual. Ou seja, foi o mesmo que não ter lá ido.
No que diz respeito ao exame real, que fiz hoje, tenho a sensação de que não houve qualquer evolução, nem minha, nem tua. Fizeste efectivamente só duas perguntas, como eu tinha sonhado. Até aí tudo bem. A primeira pergunta era, como eu já esperava, objectiva. Mandavas-me analisar e interpretar um poema de Álvaro de Campos. Simples e fácil, como tu dirias. Até aqui tudo bem, ainda que uma perguntinha qualquer (nada que implicasse muito esforço da tua parte, claro) não ficaria nada mal. Uma coisa simples, do tipo: “Analise o poema em questão tendo em conta a fase pessimista do autor”. Ou melhor: “Tente expôr, por palavras suas, a problemática do “eu” na poesia de Álvaro de Campos, tendo sempre em conta este texto específico”. Parece-te complicado? A mim não. Mas eu não sou doutor (estou a tentar ser).
Mas tudo bem. Já fiz coisas mais difíceis do que analisar um poema sem qualquer tipo de direcção ou sugestão. A minha não-surpresa foi quando cheguei à segunda pergunta. Devo admitir que até foste simpático, pois deste-me a escolher entre duas. As opções eram, a saber: “Caraterize dois movimentos literários sobre os quais nunca falámos nas aulas, tendo em conta a perspectiva do crítico do qual nunca ouviu falar”. A segunda opção, pela qual optei, era mais fácil: “Comente o seguinte excerto de Gastão Cruz (poeta algarvio) sobre o tema do qual também não falámos nas aulas". Estou certo de que li um “desemerde-se” algures nas perguntas, mas não posso afirmar com certeza absoluta.
E assim passei eu mais duas horas do meu tempo na tua sala de aula, a fazer o teu exame. Se me pudesse avaliar a mim próprio, dar-me-ia vinte valores, mas eu sou suspeito, embora só pelo esforço me julgue merecedor de rebentar com a escala. Mas está bem, eu desço à Terra.
Saí do exame, mais uma vez, convicto de que fiz a minha parte. Estudei, li, interpretei. Fui ver palavras ao dicionário (não fui à net, fui mesmo ao livro, old school style). Passei horas na biblioteca a ler coisas que não me interessam e a tentar compreendê-las, na minha eterna inocência de estudante. Esquematizei, periodizei e sublinhei. Isto tudo, entenda-se, para estudar a “tua” literatura. 
Alguma coisa aprendi pelo meio, que não haja dúvidas disso. Mas depois de ler o teu exame cheguei à conclusão que não vale a pena. Por muito que estude ou que me esforce, nunca vou conseguir responder de forma satisfatória às perguntas que me colocas. Mas não faz mal, pois como um amigo (teu colega, já agora) me disse: “O que o Rui é - como estudante, como pessoa, como homem (no sentido humano da palavra)... É bastante mais importante do que qualquer «insónia roxa»…”. Por isso, crê-me com estima, acredita em mim, e passa-me com dez valores, que eu finjo ficar contente.


Senta-te comigo Lídia, à beira-rio, e esperemos, sem preocupações… pela nota.

Thursday, June 08, 2017

Manifesto

Pela primeira vez na minha vida, e aos 36 anos, chumbei a uma cadeira de literatura. E estou indignado. Esta indignação tem a ver com vários factores, sendo que todos eles provêm da mesma fonte: o Professor (daqui em diante tratado por P.). Ora, que fique desde já estabelecido que eu também tive culpa, pois não me preparei convenientemente para a prova a que fui submetido, o que neste caso específico quer dizer que não li ou não consegui memorizar as opiniões dos críticos literários que, por sua vez, compõem a opinião de P.. Isto porque P. não tem opinião. Desde que haja “ensaio publicado”, P. anda feliz da vida.
Importa então esclarecer o conceito da palavra Literatura, que vem do latim litteratura, que significa “erudição; ciência relativa às letras”. Já a definição de professor, num qualquer diccionário, diz-nos que se trata de um “indivíduo que ensina bla bla bla” ou, no seu sentido figurado, “aquele que é versado ou perito (em alguma coisa)". Dois conceitos simples, portanto, e fáceis de entender. Importa também referir que, há 18 anos, quando estudava em “altura própria”, aprovei a duas cadeiras sobre o mesmo tema, ainda que com vertentes diferentes, e tendo como docente o supracitado P.  A Literaturas Estrangeiras de Língua Portuguesa tive 17 valores (depois de uma aposta com P., que dizia nunca ter dado mais do que 15 a um aluno), e a Teoria da Literatura (cadeira graças a Deus extinta do curso), tive 14 valores. Não menos importante, importa também destacar que, pela primeira vez na minha vida, estudei para uma cadeira de literatura. Sim, estudei! Fui ler o que os outros dizem sobre determinado autor, pois é certo e sabido que os “outros” sabem mais do que, mero alumnu, ou “criança que se dá para criar”. Não só estudei, como memorizei datas, conceitos e até algumas frases do autor que sei ser o favorito de P.. Para além disso, fiz uma timeline dos movimentos literários desde finais do século XIX até à modernidade (ainda que, nas aulas, não tenhamos passado dos heterónimos). Organizei cronologicamente os ditos movimentos e respectivas características, e comecei a suar quando me apercebi que seria impossível memorizar tudo. Passei horas na biblioteca a ler críticos que, quais cirurgiões da língua portuguesa, escreveram verdadeiros tratados sobre este e aquele autor. Curiosamente, creio não estar muito longe da verdade se disser que 80% desses autores nunca escreveram um romance na vida, ou um soneto, ou um conto, ou algo dotado de propriedades estéticas. Não. O que interessa é saber que a anti-semiose da hermenêutica constitui uma problemática metafísica, mormente na escrita de Fernando Sá-Carneiro, ou será Camilo Pessoa? Não sei, com termos tão “cultos” acabo por me baralhar. Entretanto, que fique claro que nada tenho contra o estudo da literatura na História, pois acho que faz todo o sentido. Contudo, creio que esse estudo não deve, de forma alguma, castrar a evolução do pensamento individual. Finalmente, uma referência às 45 horas de aulas que tive com P., todas elas passadas a ouvir P. a falar sobre determinado assunto. Sim, a falar. Não houve discussão, não houve alunos a ler, não houve as famosas fotocópias (entenda-se exemplos práticos do que se está a tratar). Nada. Houve a voz de P., nada mais. No final de cada aula, P. perguntava, com um sorriso escarninho: “têm dúvidas?”, e ninguém respondia. E eu também não ia responder, pois já havia cometido tamanha façanha, com apenas 19 anos, de dar voz à minha opinião durante uma aula de literatura. Ai de mim, que não tinha noção da minha falta de erudição.
Paro agora de divagar, para passar à parte em que me enfureço e, com o sapo engolido e bem preso na garganta, manifesto a minha frustração.


(Entro em fase de transformação, de enfurecimento do eu: qual Fernando Pessoa, exilo-me de mim e, através de café e chá verde, pois acabou-se-me o ópio, entro num estado de heteronímia enrubescida).


Ficas avisado, P. (o facto de não vires a ler isto não importa, pois o desconhecimento da lei não implica o seu não cumprimento). Faltam três semanas para o exame de recurso. Quando o for fazer, pois não tenho outro remédio, vou fazer questão de te agredir com o violoncelo do Pessanha, de te massacrar com a estátua falsa do Sá-Carneiro, de apascentar as tuas sensações, qual poeta bucólico “de espécie complicada”, mestre dos heterónimos, Alberto Caeiro. Vou fazer com que chova obliquamente naquilo que escrever e vou esfregar-te os érres e os vês de Álvaro de Campos na fuça (sim, se pensavas que terias direito à “Tabacaria”, desengana-te, não tens). Vou chamar o Horácio e transformar-me em Ricardo Reis, para te escrever uma Ode clássica, para poderes disseminá-la com algo escrito por outrem, que não tu, pois tu não tens opinião. Vou esquecer o simbolismo-decadentismo, metáfora perfeita da tua forma de ensinar, e vou imbuir-me do poder revolucionário modernista. Para tal, vou viajar no tempo e fazer o percurso entre 1912 e 1938, ano em que o neo-realismo começou a acenar e a dizer que o povo é quem mais ordena. Vou avançar ainda mais e, deixando para trás o surrealismo (pois para surreal já me chega a “tua” cadeira), e vou pedir ao Manuel Alegre que me escreva uma revolução de Abril, só para ti. Vou fazer tudo isto, e só não farei mais porque a folha de teste é limitada, caso contrário faria questão de continuar a dissecar décadas de escrita com opiniões que não são minhas.
Vou fazer tudo isto e mais, na esperança de que, como os presencistas, a literatura se torne numa “arte desvinculada”, quando finalmente me desvincular de ter de olhar para ti e de ouvir-te. Vou fazer tudo isto munido da minha experiência enquanto amante das letras, enquanto escritor (não com ensaio publicado, mas antes com OBRA publicada, por muito boa, ou má, que possa ser). Vou apostar em que a minha memória não me falhe e vou responder às perguntas que me fizeres com as opiniões dos outros. Vou guardar o meu orgulho bem guardado e fechar a minha opinião a sete chaves, pois ao escrever este “manifesto”, apercebi-me:


Tu não mereces a minha opinião.

Friday, March 21, 2014

Dia Mundial da Poesia 2014

E porque hoje é o dia que é, e também porque há muito que ando arredado deste espaço, aqui fica mais um poema que fez parte de uma exposição. Desta feita, é a interpretação que fiz do quadro que o meu amigo Luís Rosário pintou, para "cabeça de cartaz" da exposição que fizemos em conjunto.

Portanto, sem mais assunto, versifiquemos:


Eu sou aquilo que sou sem ter medos
e tu que estás a olhar para mim pensas
em roubar os meus segredos?

Pois olha outra vez porque não viste bem…
eu não sou tua nem sou de ninguém.

Chamo-me Lua.
Sou assim simples, despida e nua.
Saio só… durante a noite vou para a rua.

O espaço é meu e faço dele o que quero
atreves-te a duvidar que sobre a noite eu impero?
Pois duvida e abre os olhos, que não é por ti que eu espero.

Olha, observa, enxerga enquanto puderes
eu sou a qualidade do pensamento que me auferes.
Sou preto e sou branco, sou o que tu quiseres.


Mas não penses que mandas em mim, porque a Lua não tem dono.
Tem as estrelas que a alimentam e no teu sonho o seu trono.

Friday, August 16, 2013

Olhava as estrelas

Já lá vai o tempo em que olhava
as estrelas, sozinho numa qualquer viagem
e pensava:
Que amor estará reservado para mim?
Olhava as estrelas e chorava a falta de ti,
de ainda não te conhecer.
Era jovem, era novo, era tolo.
Não sabia o que esperar.
Olhava as estrelas e chorava a falta de ti.
Sempre senti a tua falta na minha respiração,
condicionada pela ausência do teu sorriso
que afinal de contas, eu não conhecia.

Já lá vai o tempo em que olhava
as estrelas e perguntava à Lua:
Que amor está reservado para mim?
Olhava as estrelas e chorava a falta de ti.
Como qualquer rapaz novo
julgava eu que era!
Como qualquer sonhador
que procura nas estrelas a resposta,
a solução para o respirar ofegante.
Mas afinal, o meu problema era precisamente esse!
O fraco respirar.
Não sei, o ar parecia não ser suficiente.
E perguntava às estrelas:
Onde estás, meu amor?
Onde está o meu amor?

Olhava as estrelas e chorava a falta de ti.
Era jovem, era novo, era tolo.
Não sabia o que esperar.

E agora o tempo vai, o tempo
segue o seu caminho e o meu respirar…
Bem, o meu respirar é ofegante!
Parece que as estrelas me responderam.
Parece que a resposta eras tu,
parece que estava escrito nas estrelas.
A Lua, dissimulada, nada me disse!
Mas este respirar, este excedente de ar
que quase faz rebentar os meus pulmões
que quase faz saltar o meu coração para fora de mim.
Este respirar diz-me que és tu,
és tu a estrela que me faz ficar fora de mim.

Olho as estrelas agora, e já não choro.
Pelo menos, não choro de tristeza!
Sinto a emoção crescer dentro de mim,
sinto o sentimento.
Sinto que o olhar as estrelas afinal fazia sentido.
Sinto que o olhar as estrelas era esperar por ti.

E agora, que te tenho a meu lado,
sinto que sou o sonhador mais felizardo!
Sinto que o amor afinal existe
sinto que afinal o respirar fazia sentido.
Sinto que havia sentido em respirar.

Olhava as estrelas e chorava a falta de ti.
Era jovem, era novo, era tolo.
Não sabia o que esperar.

Agora o tempo passa e eu não vejo
o tempo passar.
Agora as estrelas chegam mais cedo
e vão-se embora mais tarde.

Agora tudo faz sentido, porque a Lua está aqui.
Consigo vê-la aqui, bem a meu lado.
Consigo ver-te e ter a certeza que não há,
Não existe… um céu mais estrelado.

Monday, August 20, 2012

Corporeus


Ainda estou à espera de fotos mais focadas dos quadros. Por enquanto vai com esta, quando tiver melhor será substituída!




São orgasmos de querer que se enfrentam
frente a frente, à espera que o primeiro soçobre
na teia do desejo incontrolável.
Ela é luxúria cravada num corpo de deusa
que não consegue resistir ao prazer tatuado
em todos os seus sentidos.
Ele olha, observa, paciente…
Qual estátua homem esculpido com o suor
dos músculos que imperam na escuridão.

São amantes sem saber
são crentes sem querer.

São estímulos de um paraíso corpóreo
carnal onde se escondem correntes
geladas fervilhantes.
A luz que ilumina os seus corpos perfeitos
rega as fantasias de amor húmido suado
em gemidos inocentes;  gritos de prazer
ânsias confusas algemadas no encontro de
dois amantes físicos.
No encontro de dois náufragos à deriva
perdidos na beleza feérica insuportável.

Monday, July 23, 2012

Lábios

Nas próximas semanas vou aqui publicar os poemas, e respectivos quadros que fizeram parte da exposição de pintura e poesia que se realizou em Elvas, no Museu da Fotografia. Os quadros são do meu amigo Luís Rosário e os poemas, claro está, são meus!






Num beijo a preto e branco perdi


as cores vivas vermelho sangue que respiravam


o dar vida a estes lábios agora inertes.



Na tua contemplação tranquila


fica depositada a esperança de que um dia…


a carne volte a ter cor e estes lábios te beijem


repletos de sabor.



Num beijo de frutos vermelhos


de olhos rubros e reflexos espelhos


declamados versos que conferem cor enrubescida


e irrigam estes lábios de palavras sentimentos vida.



Monday, June 04, 2012

Precisão



Não consigo saber do que afinal preciso?

Sei que preciso de qualquer coisa:

Saber o que preciso e me faz falta.

Precisar o que quero saber

e saber do que não preciso.

Preciso de precisão!

Será mesmo que preciso?

Faz-me falta tanta coisa inútil?

Ser-me-á útil precisar tanto?

Mas afinal o que sei eu?

Sei que não preciso de nada…

Sei que preciso de tudo!

E no final…

Sei que preciso de saber.

Saberei precisar melhor?

Wednesday, May 16, 2012

Falta de Ar



Um suspiro sussurra os lamentos de ontem
à procura de uma brisa que o leve
para longe… para bem longe.
Sente-se sozinho, sem companhia.
Mas afinal um suspiro é só isso
um suspiro.
Qual nesga de ar sem espaço para crescer.

Mas cresce.
Lentamente, transforma-se em grito
e berra cá para fora as suas angústias.
Sonha que um dia vai conseguir
gritar em grupo, fazer um coro
de berros que façam muito barulho!
Quer voar, dar asas a tudo o que sonhou.

Nos espaços mais recônditos
escondidos nas profundezas de nós
estão sentados, à espera e em alerta paciente…
todos os sonhos recatados
todas as vontades despedaçadas.
Vão emergir um dia, envergonhados mas possantes,
empurrados através da luminosidade alva.

Tuesday, May 08, 2012

Feliz Aniversário


Pai,

Ao escrever estas palavras
recordo tempos passados no passado
quando ainda era muito pequenino.
Ainda debaixo da tua asa, lá na nossa rua,
lá na nossa casa.
Brincava e pulava e corria satisfeito porque
sabia que te tinha a ti e à Mãe por perto.
Contente porque eras tu
o Pai mais fixe
o Pai melhor, maior que os pais dos outros
eras o Senhor Vivas, que toda a gente conhecia
e eu sabia e sentia  que eras
o melhor Pai do mundo.
Aos meus olhos eras diferente
eras mais alto eras melhor.
Tinhas carisma e tinhas pinta e eras brincalhão.
Eras o maior, eras o meu Pai
o melhor Pai do mundo.

Os anos foram passando e passaram a correr
e agora já não sou pequenino mas tu…
continuas a ser o maior!
O mais carismático, com mais pinta
o mais brincalhão
o meu Pai
o melhor Pai do mundo.

Apesar da distância que nos separou
nunca nos separámos.
Trouxe um pouco de ti comigo um pouco de nós.
Das nossas brincadeiras das nossas zangas.
Do meu olhar pasmado enquanto admirava
o teu ritual todas as manhãs, com as tuas gravatas
e camisas e sapatos e tudo o que vestias!
Das nossas viagens de Vila Fernando
dos teus carros que eu sonhava.
De porca-minde!
Das surpresas que me fazias.
De te ir visitar de te mobilizar.
De nos mobilizarmos um ao outro
como dois amigos inseparáveis.

Fiquei teu amigo e com estes versos
tento debelar a distância que nos separa.

No dia do teu aniversário relembro
o lembrar-me de ti todos os dias.
Afago as saudades todas que rebentam
nesta prenda imaterial.
Com esperança de que tenhas orgulho em mim
como eu tenho e sinto por ti, enquanto escrevo
este poema.
Enquanto disfarço as saudades
no meio das palavras.
Destas palavras escritas para ti,
para o meu Pai
o único Pai o Badida
o maior o melhor
o mais carismático o com mais pinta o mais brincalhão.
O melhor Pai do mundo.

Feliz aniversário,
Pai.

Friday, May 04, 2012

Sem pressa

A correr vou correndo atrás de ti.
Corro e percorro caminhos por percorrer.
Sempre contigo no horizonte, sempre a recorrer.

E quanto mais corro menos cansado fico!
E o facto de a distância ser tanta e tão travessa,
só me dá vontade de correr e avançar mais depressa.

Vou pelo corredor desconhecido
que não tem luz ou água ou qualquer tipo de amparo.
Vou porque se não for fico como não quero, claro.

Quando vejo o fim do caminho não acredito;
os meus olhos estão cegos e o meu ego está aflito.
Vou correr mais um pouco até conseguir lá chegar
e se não chegar não chego, mas não tenciono parar.

Tuesday, March 13, 2012

Repetição


Na palavra que se repete
não há sentimento que se interprete.
É o ofício do poeta: fazer frete.

Com metáforas, hipérboles e aliterações
encontra figuras que representam emoções.

Cai na tentação… escreve com a cabeça e esquece:
o importante está no coração, aquilo que nos aquece.
As palavras com que descreve, com que sonha e enaltece.

E repete-se novamente, cansado, inconsequente…
Confiante que sem fé talvez se torne crente.

Foge do confronto e da maldita desilusão;
o medo fá-lo tremer e treme com a trepidação.
Abana mais uma vez e volta a cair na repetição.

Repete o repetido, repetindo sem parar…
Pára de repetir mas já repetiu, sem sequer reparar.

Monday, January 23, 2012

Os sonhadores


Diz-se desde sempre que o amor é loucura,
é fogo dos sentidos. É ficarmos sem abrigo para
a razão. Dizem que não conseguimos dizer não.
Não se conformem com a ilusão!

Estamos todos juntos no corredor dos impossíveis
que nos fazem acreditar que algum dia… algum dia…
algum dia vamos parar de sonhar e passar a não
parar de acreditar:
Que o sonho é possível.
O amor, o esplendor de tudo o que nos rodeia…
envolve-nos e torna-nos mais fortes, crentes
na esperança de um amanhecer mais confortável.
Seremos todos racionais um dia, sentiremos com
o discernir de quem não se conforma com a simples
espera, a derradeira espera que por nós espera.
Vamos esperar?
Ou vamo-nos submergir no outro, vamos aproveitar
tudo, sugar tudo o que o sentimento alheio tem
para nos dar? Seja na forma de um dia de sol ou
das primeiras gotas de chuva de um qualquer outono.
Seja a ver um outro qualquer sorrir, ou uma folha a cair
lentamente, a dançar com a árvore à qual já não pertence mas
que sempre a protegeu, numa dança que caminha, eloquente,
harmoniosa, até à terra a que todos vamos parar um dia.
Vamos ouvir.
Ouvir o outro, o que tem para nos dizer. Ouvir uma criança
a brincar ou um velho que já ouve mal…
mas fala.
Vamos estar atentos ao pormenor, às pequenas coisas
que fazem a nossa existência grande.
Somos incomparáveis, somos invencíveis!
Se assim o quisermos, podemo-nos revezar com a alegria.
Vamos raciocinar.
Mas com conta peso e medida, porque o sentir
é mais importante, o sentir é o que nos faz ver.
É o que nos faz amar, sorrir, chorar, gritar.
É o que nos faz ficar sem voz mas mesmo assim nos faz
tentar cantar.
É o que nos faz sonhar.
Eu sinto, logo existo, e então e só então…
Raciocino.

Não há razão que raciocine o sentir.
Pois eu rasgo o pensamento com o ímpeto
da paixão. Sou apaixonado pela razão!

Sunday, August 14, 2011

Rua

“Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo.”

Albert Camus



Canto na rua,

na rua que é feita de pedras e azulejos

e de pegadas e desejos;

é feita de aromas que não conheço.

Na rua tudo se constrói, nada se destrói.

Tudo se edifica mas nada solidifica.

Na rua tudo desagua, tudo navega sem direcção.

Na rua onde há ruas e sinalização.

Onde os sonhos resvalam pelos ralos dos passeios,

na rua tudo se transforma em devaneios.

Nascem sentimentos que trazemos para a rua;

sensações que percorrem o céu a caminho da lua.

Da lua que ilumina os corredores mais insuspeitos

nas ruas que têm jardins repletos de amores-perfeitos.

Tenho pressa, quero chegar ao fim da rua,

quero existir lá, onde a rua é toda sua.

Quero chegar ao fim da rua e descansar.

Ao fim da rua que é rua, que nada mais sabe ser senão rua.

Rua! Rua! Rua! RUA!

Canto na rua.

Na rua que tem um canto sem encanto

onde eu espanto o meu pranto,

no canto da rua.

Este canto que é meu não está sujo. É branco.

E é tão branco! É branco, claro como este enfeite.

É branco franco como o branco do leite.

É o meu canto que é branco.

Imaculado, como o sentimento que tenho a meu lado.

No canto da rua onde canto o meu fado.

Wednesday, August 03, 2011

Segredo

.


O dia que ainda não chegou afasta-me da realidade.

A sonhar acordado como estou, fico assim e sonho…

aquilo que não sou.

As minhas fiéis amigas não me falham, nunca me falham.

Por elas divagam os sonhos, os meus sonhos.

E enquanto sonho não tenho medo e continuo preso

à lembrança sem me desenvencilhar do pensamento de ti.

Procuro palavras mas o vocabulário é escasso para o que sinto.

A saudade misturada com a incerteza, a certeza aglutinada…

colada à dúvida. Não quero mesmo acordar. Quero ficar assim

para não ter de decidir. Mas o pensar não me larga, a impressão

de nós juntos não me deixa ficar quieto; quero calar-me mas

também não consigo, porque quero, porque anseio, porque

desejo estar contigo.

Nada faz sentido no meu sonho e mesmo assim não quero acordar.


Ao relembrar o tempo que passámos juntos, os dias e noites que

formaram os nossos momentos. Momentos que ficaram a pairar

no ar bem à nossa frente, e que ambos recordamos com um sorriso.

É o nosso segredo, é o nosso sonho.

Sempre que abrirmos os olhos lá estará a memória a sorrir para nós.

A descoberta, a nossa descoberta… foi singular, foi bem regada! Foi

bem disposta , foi trabalhada na noite fria e na manhã quente;

foi encarnada à tardinha e pela noite dentro, com o olhar das estrelas

e o som do mar abismados perante o nosso êxtase. Foi bom, foi muito bom!

Foi tão bom que custa, que dói não podermos ter mais sempre que quisermos.

A matéria de tudo o que é composto, tudo o que é complicado,

tudo o que é difícil… derrete-se ao enfrentar o nosso beijo eterno.

Aquele beijo inconcebível de tão perfeito, aquele beijo que não

pode acontecer senão num sonho, no nosso sonho. E que dúvida!

Que dúvida ainda há que foste, que fomos as personagens

do nosso próprio dormir?

Acordámos juntos sob a neblina da madrugada, apenas para

nos abraçarmos perante a mais bela paisagem.

Não existe amanhecer completo sem a tua beleza!

Sem o teu jeito desajeitado, provocado pelo meu toque.

Espero pelo reencontro e tento conceber, imaginar o que te posso sussurrar ,

o que te posso murmurar suavemente ao ouvido

para te fazer ver o que fomos eu e tu. E beijar-te outra vez.

Adorar cada gesto teu como um tolo de amor, um louco embriagado

pelas suculentas essências que de ti emanam.

Quero espremer o nosso sumo, vertê-lo, sem o entornar! Degustá-lo

a teu lado, aproveitar tudo até à última gota.


Como um olhar inocente perdido num passeio de passagem,

uma certeza de intimidade, de reconhecimento impossíveis.

Afinal, ficámos perdidos um no outro para apenas nos perdermos mais.

Antes de os nossos olhos se encontrarem, antes de as nossas bocas se beijarem.

Antes e depois de os nossos corpos se embrulharem!

Foi assim mesmo que ficámos, apertados um contra o outro, parados

num momento que não pode acabar.

Um cigarro apaga-se mas o fumo ainda paira no ar, desvanece-se lentamente

sem aparentar saber para onde vai. Assim como eu e tu, abraçados,

perdidos num instante parado no tempo, a desejar que o tempo não passe.

Bem que fiz força para parar o tempo, mas é habilidade que não tenho.

Com a flor que pus na tua orelha tentei eternizar

o teu sorriso de menina. Sabes quão bonito é, o teu sorrir?

Um sorriso não vale nada se ninguém o pode ver.

Vale mesmo nada.

E o teu sorriso, o nosso sorriso valeu tudo.

Valeu por todas as flores que alguma vez te poderia dar.

Valeu por todos os sonhos em que sonho em te abraçar.

Vale por todos os verbos que conjugo para te recriar, para nos recriar.

Vale por todos os nomes, todas as comparações inúteis para

te descrever, para nos conceber. Não há verbo ou substantivo que

se encaixe no que foi a nossa palavra.

Do que ainda há-de ser. Gostava de saber…

Queria muito descobrir forma de tornar os segundos horas,

para assim prolongar a recordação de te ter nos meus braços.

Mas o tempo dispara, indiferente à minha vontade.

Não quer saber de mim, como tu quiseste.

Como eu sei que ainda queres.


Por isso, meu amor, não desesperes. Não chores! Não gosto de te ver chorar.

Ainda que eu próprio verta algumas lágrimas, ainda que até

o choro tenhamos partilhado.

Fazes-me falta agora que não tenho.

Agora que o meu sorriso não vale nada.

Agora que recordo o namorar-te, o arrepiar-te ao percorrer

a linha ténue e suave que desenha o teu corpo. Ver a tua pele à mercê

das minhas carícias. Sentir outra vez aquilo que sentimos quando

desejámos estar sozinhos, que toda a gente se evaporasse à nossa volta,

para podermos consumar o nosso desejo.

Fico triste quando tento controlar o ímpeto de te rever.

O nosso caminho foi construído de forma a que nos encontrássemos,

ainda que o tempo não tenha sido o mais fortuito, parece que

tudo foi feito para estarmos juntos naquele nosso momento.

Foi por pouco tempo que nos amámos, mas todo o tempo do mundo

não chegaria para separar o nosso abraço.

As palavras de amor fazem sentido quando escritas para ti, quando

reescritas para nós.

O luar foi inventado para nós! Existiu através dos tempos à nossa espera.

Como eu que tanto esperei e continuo a esperar, mas sem desesperar.

Não desespero porque tenho esperança. O meu olhar ficou perdido

no teu e de alguma forma tenho de o recuperar. Não porque me faça falta,

mas porque chorei de contente ao ver o mundo através de ti.


É pena que não possamos fazer promessas, a vida e o seu curso

assim o ditam. Mas é a única pena.

Teria trocado todo o tempo que me resta se o nosso tempo parasse;

se o nosso abraço, o nosso beijo adormecesse e se consumasse,

despreocupado, livre das ocupações a que a nossa condição nos obriga.

Que mais posso dizer?

Que mais me resta fazer?

Foram quantas noites de Amor?

Foram tantas que ficaram suspensas no ar, a pairar sob o nosso olhar

adormecido, anestesiado pelos momentos que passámos juntos.

Que mais me resta sentir?

Wednesday, July 20, 2011

Há noites

.


Há noites…

há noites em que penso que não penso.

Penso em não pensar em nada.

Mas depois chegam as noites…

as noites em que afinal penso.


Penso em ti, todas as noites.


Nas noites em que não quero pensar em nada.

Nas noites que passam pelo tempo

a ver o tempo passar.

Nas noites em que o tempo não passa.

Há noites que passo a pensar enquanto o tempo vai passando.

Passo-me a pensar no pensamento do tempo.


Há noites que não são noites e ainda assim eu penso!

Há noites que são deveras noites mas eu nunca me canso.

E entretanto as noites passam com o meu pensar;

passam comigo a pensar no passar do tempo.


Há noites em que não me resta mais tempo.

Há noites em que penso no teu passar intemporal;

No tempo em que passaste por mim sem pensar.

Fitei os teus olhos como quem não sente o próprio sentir.


Saí por uns segundos de mim e passei o tempo a olhar-nos.

Passámos os dois pelo tempo antes de juntos nos passarmos.

Friday, July 01, 2011

E porque não?

.



E porque não?

Porque não suspender uma qualquer vontade…

pendurá-la bem alto e ficar a olhar para ela,

como quem não sabe o que fazer para concretizá-la.

Porque não sorrir? Deixar mostrar os dentes e surpreender

um qualquer estranho que passe por nós na rua.

Porque não tentar?!

Mostrar ao mundo que o fundo ficou lá atrás, o buraco negro

onde vagueiam os tristes assombrados pela malvadez, pela

insensatez dos corações moles, inebriados que se mantêm fiéis a

si próprios sem saberem andar para frente sem olhar para trás, sem

tropeçar em si mesmos, por si mesmos.

E porque não…

Ficarmos assim, quietos… a relembrar…

a recordar…

aquilo que nos fez felizes, aquilo que nos avassalou de tal forma que…

ficámos avassalados, repetidos na sensação de que não falta nada

que nos falte, não há nada que precisemos. Porque não correr atrás

disso que não sabemos bem o que é mas que desejamos em todas

as horas, todos os minutos e segundos dos nossos sonhos?

Porque não sonhar?

E sonhar alto, sonhar acordados, deitados, embriagados. Sonhar

entusiasmados!

E porque não acreditar?

Porque não pensar que o amanhã será sempre melhor se assim

o quisermos, porque nos esforçámos sem esforço por ser aquilo

que somos. Porque somos sonhadores. Porque somos como somos.

Porque não dizer palavras bonitas…

porque não elogiar alguém e fazer bem aos outros?

E porque não…

Deixarmos de ser egoístas e sermos sim altruístas.

Porque não tentarmos ser artistas?

Desenhar, pintar, cantar, escrever as nossas canções,

declamar os nossos versos e pincelar aquilo que somos

na eternidade de uma obra de arte, da nossa arte.

Desenhar linhas curvas entrelaçadas com linhas rectas,

fazer rabiscos e concretizar raios e coriscos!

Porque não deixarmos de ser ariscos?

E porque não arriscar?

Sermos corajosos, desejar o que desejamos sem medo do que

pode acontecer. Sermos nós a acontecer!

Porque não acontece?

Porque não queremos.

Porque não acreditamos, e porque não arriscamos.

E porque não acabar?

Porque não.

Porque só acaba aquele que ficou sem voz, aquele que nada sabe de nós:

Os sonhadores, os poetas, os envergonhados.

Os campeões, os aldrabões e também os agarrados.

Não vamos esperar!

Vamos observar:

Tudo e todos e tudo e todos ao mesmo tempo,

vamos ver o sol nascer e a lua a dormir. Vamos olhar as

estrelas só porque são estrelas.

Ou então porque são belas, mas vamos olhá-las. Vamos

concordar e discordar, vamo-nos abraçar.

Porquê?

Porque sim.

Monday, May 23, 2011

Menina dos olhos verdes

"A prosa poética é prosa que quebra algumas das regras normais da mesma para atingir uma imagética mais sofisticada ou um maior efeito emocional."


Menina dos olhos verdes,


Invocaste um feitiço que me deixou quieto,

paralisado com o pensamento do teu jeito

sonhador que me faz também sonhar. O primeiro

olhar foi assumidamente distraído e inocente, mas

cheio de significado. Quis dizer, quis ser o começo

de um sentimento que não pára de crescer.

O tempo foi passando e os meus olhos começaram

a ficar da cor dos teus. O meu eu saiu de mim sem

me aperceber e deixei de me conhecer. Fiquei

sem conseguir compreender se a distracção tinha sido minha,

se a magia que senti não seria magia.

Mais uma vez o mar trouxe-me o teu aroma,

que só veio confirmar que o feitiço deveras aconteceu.


Menina dos olhos verdes, do olhar sonhador,


O tempo tornou-se meu inimigo;

tenho travado uma luta injusta que não parece ter fim,

que não consigo vencer. Sou vencido duas vezes:

uma pelos teus olhos e outra pelo tempo. Mas sou também

vencedor porque ganhei o teu querer, ainda que sem querer.

Depressa o teu olhar passou de distraído a cheio de intenção,

mesmo que o não soubesses. Foi isso que senti e me deixou

preso à linha ténue que separava o apaixonar-me por ti.

Aproximei-me.

Devagar, como quem domina a impaciência

de não conseguir raciocinar.


Menina dos olhos verdes, princesa dos poetas,


Encontro-me muitas vezes à briga com as palavras,

no desespero de encontrar expressões que definam

a tua singular beleza. Todos os adjectivos terão de ser

reinventados, porque têm de ser únicos, plurais, superlativos,

tudo isto ao mesmo tempo. Passaste, sem esforço, de uma visão

agradável a uma certeza de beleza; aquela certeza que os nossos

olhos têm quando foram feridos pelas flechas do Amor.

Penso ser óbvio neste momento que levei com uma chuva delas,

sendo cada uma a representação individual dos teus cabelos

à deriva por entre os meus dedos.


Menina dos olhos verdes, dos cabelos dourados,


A minha história foi escrita numa jangada que vagueou ao sabor

do vento na tua direcção. Deixou de ser a minha história e passou

a ser a nossa, naquela noite perfeita em que enlouquecemos,

rebentámos com a vontade acumulada pela impossibilidade que

foi imposta no nosso caminho. Até essa noite nunca teria imaginado

que um simples toque de mãos pudesse ser mais intenso que

o beijo mais apaixonado. Lembras-te quando as nossas mãos se tocaram?

Estava escrito assim nas estrelas, que todas as noites guiaram o nosso

andar, o nosso percorrer da realidade na procura do sonho.


Menina dos olhos verdes, da cor do mar,


Não há um dia que passe em que eu não me recorde:

o teu deslizar, o teu pairar de princesa enquanto corrias,

que nem uma criança na direcção do mar. Tudo isto banhada

pela luz do mais bonito luar. A melodia de te ver correr fez-me

sonhar acordado, ao realizar que o chapinhar dos teus pés na água

me fazia sorrir. E assim fiquei, a sorrir; a olhar-te sem dizer nada

para não deitar a perder nada.

Comecei a absorver-te sem conseguir parar, e quando dei por mim

já não estavas por perto, o dia começara a nascer.


Mas voltemos àquela noite, menina dos olhos verdes,


A noite em que as incertezas se tornaram notícia, pois explodi

a gritar para as estrelas, a contar a boa nova: a minha história

estava completa, porque estava contigo! Rapidamente o céu

começou a mudar; já tinha pedido à Lua que organizasse

um concerto estelar para embalar as horas em que escrevemos

o nosso poema. Nem reparámos que o espaço era tão apertado,

exíguo mesmo. A força que nos impelia na direcção um do outro

era tal que abraçar-nos era o nosso luxo, era o nosso espaço.

Ah… e depois surgiu o beijo, o tão esperado beijo.

Os nossos lábios tiveram dificuldade em perceber o que aconteceu

quando se tocaram, tal não foi a intensidade.

Sem saberem como reagir, foram-se encaixando, saciando loucamente

o desejo insaciável. Parecia o primeiro beijo. A atracção foi

tão avassaladora que o movimento se tornou torpe,

inconsequente, descontrolado.

Como poderíamos controlar tamanho desejo?


Menina dos olhos verdes; Ah! menina,


Os dias custam a passar quando apenas existe memória.

Lembrar o inevitável encontro que se perdeu no tempo é

doloroso e incontornável. Queria sorrir e pensar que os teus olhos

poderiam ser meus, mas como ambos sabemos, por vezes…

o querer não chega.

Falta coragem!

Falta não querer deixar morrer o sentimento nobre dos amantes

que não controlam o seu próprio sentir. Falta-nos sentir-nos outra vez,

outra e outra vez. Apostar em nós sem receio do que possa acontecer.

Porque o destino assim o diz, porque o destino assim o quis.


Menina dos olhos verdes, verdes, verdes!


Queria saber esperar. Ter paciência, controlar o desejo.

Mas sei que se foi o destino que te colocou no meu caminho,

também pode ser ele a subtrair-te do meu coração.

O núcleo de um poeta é o seu coração, que tem de ser regado,

irrigado, alimentado com o suco da paixão. Talvez consiga

aguentar mais um pouco, não sei… fá-lo-ei em nome da intensidade

que sentimos, os dois. Ainda que tenha sido breve, vou para sempre

reter a expressão na tua face quando, sem defesas,

te encontraste deitada no meu regaço.

Vou cantar a nossa canção, tentar aperfeiçoá-la, adjectivá-la como merece.

Mesmo que já esteja a ficar rouco, acredito que os teus olhos

não me enfeitiçaram em vão. Acredito que os nossos lábios se vão

encontrar outra vez. Seria duro demais não acreditar.


Menina dos olhos verdes, perdidos no tempo,


Vem, vamos envelhecer juntos como o vinho

que tanto gostamos. Vamo-nos embriagar um no outro,

quais grainhas que namoram no ventre da uva até que

o tempo diga que é tempo.

Vamos transformar-nos um no outro.

Vem, não tenhas medo; estou aqui à tua espera e prometo

guardar segredo.



Um suspiro, um sussurrar teu e o nosso sonho pode ser verdade.

Vem, não tenhas medo, vamos fugir de viver na saudade.