Friday, February 04, 2011

Quadrado Circular

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Numa esfera quadrada correm as inquietações
do poeta apaixonado. Procura palavras que descrevam
o sentimento que almeja e pensa não alcançar. A Lua
rege o seu sentir, matreira. Com as suas fases, torna
o poeta descontrolado, aturdido pelas constantes
mudanças de luz. É na noite que o miúdo se encolhe,
se esconde e aguarda a chegada dos monstros do
armário, os monstros que assolam a sua solidão.
A ténue luz que vem lá de fora abrilhanta o medo sujo
e inocente.
Mas o miúdo graúdo acredita que é diferente.
Acredita que é poeta. Acredita no sentimento maior
que aquece o coração do homem, que o torna uno,
completo, inteiro.
O miúdo sonha de noite e o graúdo vive de dia.
A Lua só reflecte luz à noite e durante o dia
apaga-se.
A esfera continua quadrada, com arestas que
impedem o sentimento de circular.

Monday, January 31, 2011

Absorvente

.


Estou cansado. Sinto que as forças me falham
e a cabeça não quer raciocinar. Há uma névoa
constante que tolhe a minha visão das coisas. Penso
como seria e tento imaginar o que nunca será.
Espero…
O cansaço insiste.
Ponho uma perna à frente da outra e
tento não tropeçar em mim próprio quando ando. Aos
poucos vou ficando tonto, como que lucidamente embriagado.
Pergunto-me se tudo o que acontece são testes ao meu carácter?
Tornei-me numa esponja que absorve e retém todos os
sofrimentos já sofridos. Talvez venha daí o cansaço.
Talvez deva espremer a esponja e deixar sair o líquido da desilusão.
Talvez assim desapareça a névoa que cobre a minha visão.
Talvez assim consiga sorrir sem ter de me preocupar
com o susto de dizer:
Oh! Por favor, outra vez não!
Talvez assim seja capaz de correr, não sei.
Talvez assim tropece de vez.
Ou talvez me levante sozinho.
Eu que preciso de mim:
talvez assim.